“Corra de um lado para o outro pelas ruas de Jerusalém, olhe e observe! Vasculhe as suas praças para ver se consegue encontrar um homem, um que pratique a justiça e busque a verdade, para que eu a perdoe.” A proclamação de Jeremias nos confronta com um diagnóstico cívico e espiritual surpreendente: Deus procura uma única pessoa cuja vida encarne justiça e verdade, cuja presença possa mover o Senhor à misericórdia. É natural perguntar, como você perguntou, “Jeremias não seria justo?” Afinal, ele é o profeta — aquele que fala as palavras de Deus e chama o povo ao arrependimento. O texto, contudo, nos obriga a reconhecer a dura realidade de que nem mesmo um ofício piedoso e um discurso zeloso equivalem automaticamente à perfeição de justiça e verdade que Deus exige em uma cidade caída.
O próprio Jeremias era um homem profundamente comprometido com a Palavra de Deus; resistiu à idolatria, denunciou a injustiça e suportou pesadas responsabilidades solitárias por seu povo. Ainda assim, a passagem ressalta o ponto desconfortável de que a justiça e a verdade necessárias eram tão escassas que Deus não conseguiu encontrar um único indivíduo nas praças para desencadear o perdão coletivo. Isso não é uma condenação da fidelidade de Jeremias como profeta, mas um lembrete sóbrio de que a fidelidade profética ainda carrega as marcas da fraqueza humana e de que o pecado comunitário frequentemente excede o remédio que qualquer indivíduo pode oferecer. O papel do profeta é nomear a falha, chamar a cidade de volta e apontar além de si mesmo para o remédio mais profundo que Israel ainda precisava.
O Cristo que proclamamos responde ao dilema que Jeremias descobriu: Jesus é aquele que tanto pratica a justiça perfeita quanto encarna a verdade em pessoa. Onde faltava um defensor justo nas ruas de Israel, Cristo se apresenta como o Homem justo e o Substituto justo, assumindo o nosso juízo e oferecendo perdão aos que se arrependem. Na prática, isso significa que nossa esperança não está em encontrar um líder humano sem mácula, mas em receber e viver sob a misericórdia de Cristo. Buscamos a justiça e procuramos a verdade não para conquistar o perdão, mas para testemunhar o poder transformador do evangelho, permitindo que o Espírito forme em nós aquilo que só Cristo pode realizar plenamente.
Portanto, ouça tanto o chamado quanto o consolo: examine sua vida e sua comunidade honestamente — confesse o que está aquém, trabalhe fielmente pela justiça e fale a verdade em amor — porque essas disciplinas fluem da graça já dada em Cristo. Que a pergunta investigativa de Jeremias aguçe o seu anseio pela justiça que salva e pela verdade que cura, e que a justiça e a verdade perfeitas de Cristo sejam o fundamento da sua coragem para arrepender-se e para servir. Continue confiando nele; ele é capaz de perdoar e de fazer de você uma testemunha viva da sua misericórdia.