"Ao ver as multidões, Jesus sentiu grande compaixão pelas pessoas, pois que estavam aflitas e desamparadas como ovelhas que não têm pastor. Então, falou aos seus discípulos: “De fato a colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi que Ele mande mais trabalhadores para a sua colheita”."
Introdução
Ao contemplarmos Mateus 9:36–38 somos levados ao coração do ministério de Jesus: uma compaixão ativa diante da aflição humana e um chamado urgente à missão. Neste curto trecho, Jesus observa a condição das multidões, expressa seu sentimento profundo e convoca os discípulos a orarem pelo envio de trabalhadores para a colheita do Reino.
Contexto Histórico-Cultural e Autoria
O Evangelho segundo Mateus foi composto em grego para uma comunidade cristã de matriz judaica, provavelmente entre 70–90 d.C.; a tradição atribui-o ao apóstolo Mateus, coletor de impostos. O episódio situa‑se no âmbito do ministério público de Jesus, quando ele itinerava por cidades e campos da Galileia e regiões vizinhas, atraindo grandes multidões de enfermos, pobres e buscadores religiosos.
No pano de fundo cultural, a imagem pastoral (ovelhas e pastor) remete ao Antigo Testamento — por exemplo Ezequiel 34, que denuncia pastores injustos, e ao Salmo 23, que exalta o cuidado divino —, fazendo ressoar a expectativa e a crítica sobre liderança espiritual. Em grego, palavras-chave ajudam a captar a força do texto: ἐσπλαγχνίσθη (esplagchnisthē, “sendeu compaixão”), ἐκλεῖπον / ἐρριμμένα (ekleipon / errimmena, “estavam aflitas, abandonadas”), θερισμός (therismos, “seara/colheita”) e ἐργάτας (ergatas, “trabalhadores”). Essas expressões sublinham tanto o sentimento humano de Jesus quanto a dimensão missionária delegada à comunidade.
Personagens e Locais
- Jesus: o mestre que observa, sente compaixão e instrui.
- As multidões: pessoas aflitas e desamparadas — incluíam doentes, pobres, socialmente marginalizados e espiritualmente carentes.
- Os discípulos: interlocutores imediatos e primeiros responsáveis por aprender a missão e levar adiante o chamado.
- Não há menção de cidade específica no versículo, mas o cenário remete às zonas onde Jesus ministrava: vilas e campos da Galileia e arredores.
Explicação e significado do texto
Jesus, movido por compaixão (σπλαγχνίζομαι), vê as pessoas como ovelhas sem pastor — uma metáfora que denuncia a falta de liderança que guia, protege e alimenta espiritualmente o povo. A expressão enfatiza tanto a fragilidade da multidão quanto a responsabilidade comunitária e pastoral.
A afirmação “a colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos” contém duas verdades complementares: há grande necessidade e oportunidade de fruto espiritual (colheita), e ao mesmo tempo escasseiam aqueles dispostos e preparados para o trabalho missionário e pastoral. O pedido para orar ao “Senhor da seara” desloca a confiança da comunidade do mero esforço humano para a dependência de Deus, que é o dono e diretor da missão; orar não é passividade, mas reconhecimento de que o envio e o sustento dos trabalhadores vêm do Senhor.
Teologicamente, o texto liga compaixão e missão: a compaixão gera mobilização; mobilização requer oração e depende do Senhor. Para a igreja, o texto convoca a três respostas práticas: cultivar a compaixão pastoral, formar e enviar trabalhadores (evangelistas, pastores, obreiros) e preceder toda ação missionária com oração ao “Senhor da seara”.
Devocional
Que a compaixão de Cristo nos comova: ver as pessoas com seus sofrimentos e necessidades nos leva a colocar o coração no lugar do Mestre, a sentir responsabilidade pelas almas feridas e a desejar agir com cuidado e humildade. Antes de tudo, somos convidados a orar, reconhecendo que a missão pertence a Deus e que Ele concede os operários e os recursos para a colheita.
À luz deste texto, pergunte‑se onde Deus o(a) tem chamado a participar da seara — em oração, no cuidado pastoral, no serviço prático ou no envio de missionários. Confie que o Senhor da seara ouvirá as súplicas e capacitará aqueles que Ele enviar; ofereça‑se com coragem e dependência, sabendo que a compaixão gera ação e a oração obtém o envio.