"“Retirai-vos daqui! Esta menina não está morta, mas adormecida”. E todos zombavam dele."
Introdução
Neste curto versículo de Mateus 9:24 lemos a declaração de Jesus: “Retirai‑vos daqui! Esta menina não está morta, mas adormecida”. A reação imediata dos que estavam presentes é de zombaria. Em poucas palavras o texto confronta a realidade da morte com a autoridade e a perspectiva de Jesus sobre ela.
Contexto Histórico-Cultural e Autoria
O Evangelho segundo Mateus foi escrito em grego koiné, provavelmente entre as décadas finais do primeiro século (c. 70–90 d.C.), para uma comunidade marcadamente judaica-cristã. A tradição patrística atribui a autoria a Mateus, o cobrador de impostos, ainda que a crítica moderna frequentemente oponha que o evangelho reflete a obra de uma comunidade que colecionou tradições e as adaptou para seu público.
Linguisticamente, a expressão central traduzida por “adormecida” reproduz uma imagem corrente no Novo Testamento: do grego καθεύδει (katheudei, “dorme”), usada por Mateus e também por Marcos e Lucas nesse relato paralelo, e por João em outras passagens (por exemplo, João 11) para referir‑se à morte com nuance de esperança. Patristas como Orígenes e João Crisóstomo comentaram essa linguagem como indicação da expectativa da ressurreição; estudiosos contemporâneos (historiadores do cristianismo e exegetas do Novo Testamento) observam que essa imagem suaviza a gravidade da morte e sublinha a confiança na ação de Deus sobre a vida e a morte.
Personagens e Locais
- Jesus: o personagem que profere a ordem e a declaração sobre a menina.
- A menina: a jovem a quem o texto se refere, cujo corpo está presente; no contexto imediato do capítulo é a filha do chefe da sinagoga.
- Os presentes: os que zombam dele, representando a descrença ou incompreensão em relação ao que Jesus afirma.
- Local: o interior da casa onde se encontra o corpo — o episódio ocorre na casa do líder da sinagoga (o nome Jairo aparece nos versículos anteriores do mesmo relato).
Explicação e significado do texto
A frase de Jesus combina duas ações: uma ordem para que se retirem os que zombam e uma afirmação teológica sobre a condição da menina. Pedir que “se retirem daqui” tem o duplo efeito de separar os céticos do momento de fé e de preparar um ambiente livre para o ato milagroso que seguirá. Ao dizer que a menina está “adormecida”, Jesus usa um termo comumente empregado na linguagem bíblica para a morte, mas que carrega uma esperança: não é um fim absoluto, mas um estado temporário que Deus pode transpor.
No plano teológico, o contraste entre a zombaria humana e a palavra de Jesus destaca duas atitudes diante do mistério da morte — escárnio e fé — e apresenta Jesus como aquele que tem autoridade sobre a vida e a morte. Literariamente, esse versículo funciona como a tensão central do perícopo: a incredulidade pública e a confiança do mensageiro (e da família) que busca Jesus. No grego do texto, a escolha de καθεύδει reforça a continuidade entre as imagens usadas por Jesus nas outras narrativas de “ressuscitação” (por exemplo, Lázaro) e a escatologia cristã que vê a morte como sono temporário à espera da intervenção divina.
Esse enunciado também prepara o leitor para o gesto de poder que se seguirá: não se trata apenas de reviver um corpo, mas de manifestar a presença do Reino, em que a vida de Deus vence as expectativas humanas. A zombaria dos presentes serve para evidenciar a pequenez da visão humana diante do agir de Cristo, e a narrativa convida o leitor a escolher fé em vez de riso cético.
Devocional
Quando enfrentamos perdas e aparente finalidade, as palavras de Jesus nos lembram que nossa perspectiva é limitada. Chamar a morte de “sono” não nega sua dor nem trivializa o luto, mas insere a perda na esperança cristã: há Aquele que desperta, que transforma o silêncio da morte em um encontro novo com a vida. Convido você a levar a sua dor a Jesus, reconhecendo nele a autoridade que dá sentido mesmo ao que parece irreversível.
É um chamado para não sermos como os que zombam, cuja reação muitas vezes é fechar o coração e ridicularizar a fé alheia. Em vez disso, cultivemos a coragem de permanecer próximos, de confiar na palavra de Cristo e de permitir que a sua presença transforme nosso medo em esperança, sabendo que o poder de Deus transcende as chaves da morte.